Encontro

Uma tinha todo o medo do mundo. A outra ainda não entendia o mundo. Uma não sabia o que estava fazendo lá. A outra simplesmente estava. Georgia era uma jornalista que pela primeira vez cobria uma guerra. Maya era uma garotinha que vendia cata-ventos de plástico pelas avenidas de um país no Oriente Médio. Cada uma decidida a terminar seu trabalho e voltar para casa o quanto antes.

Elas se encontraram num dia especialmente quente. A poeira se espalhava pelo rosto gorducho e marrom de Maya em segundos. A pele branca de Georgia também se contaminava com o ar quente das ruas. Maya deslizava entre os carros oferecendo os cata-ventos aos motoristas e aos soldados. Ela conhecia tudo, ali é a sua casa. Ela até que se dava bem. Era difícil resistir suas bochechas gostosas e seu biquinho em formato de coração. Normalmente ela se atrasava para o almoço, só podia voltar quando tivesse vendido todos os cata-ventos. Maya caminhava 40 minutos até chegar em casa, então precisava se esforçar.

Georgia, há 40 minutos em terras estrangeiras, já estava arrependida. Se alguma coisa acontecesse, ela não teria ninguém para culpar, a não ser a si mesma. Numa demonstração repentina de solidariedade ela se ofereceu para ir no lugar de seu colega que acabara de se tornar pai. Georgia nunca foi corajosa. Georgia sempre foi medrosa. Muito medrosa. Desde pequena tinha todo o medo do mundo: medo de avião, medo de ladrão, medo de terrorismo, medo da professora de ciências, medo de ser agarrada pelo taxista, medo das bruxas que a visitavam de madrugada, medo da xenofobia, medo dos pais se separarem, medo das drogas, medo de traição, medo do irmãozinho mais novo morrer, medo da solidão que acompanha os finais dos domingos e por aí vai. Georgia trabalhou durantes anos no jornalzinho do Jardim Botânico. Ela escrevia sobre pássaros e árvores e gostava de tomar o chazinho em meio a eles. Até que um dia, acabou a verba do jornalzinho e ela arrumou um emprego num grande jornal. Um ano na redação. Café. Horários esdrúxulos. Mais café. Vida insana. 

Recém desembarcada, Georgia procurava o endereço gravado no celular. Eram palavras que pareciam códigos de astronautas. Maya ao avistar Georgia, uma moça branca e perdida no meio daquele barulho todo, achou que pela primeira vez na semana ela chegaria na hora para o almoço. Ela sabia o quão adorável era e por isso, uma excelente vendedora.

Maya se aproximou de Georgia com seu biquinho de coração e seus cata-ventos coloridos. Georgia distribuiu o peso entre as pernas colocando um pé atrás e outro na frente. Maya apenas ofereceu os cata-ventos com uma mão e com a outra abriu todos os dedos, fazendo um cinco. Aqueles dedinhos pequenos e gorduchos ficaram piscando: cinco, cinco, cinco. Georgia fingiu não entender, mas entendeu. Entendeu que aquela menina precisava dela. Veio uma vontade de chorar. Quem precisava de alguém era ela. Maya olhou para os olhos marejados da moça e sentiu seu coração apertar. Sua mãozinha fechou e se guardou. Maya queria abraçar a moça. Bem que um abraço ia bem agora.

(Autora: Clara Chaves)