Pega esse "fela da puta"! 

Grita Joao Barril,  proprietario da "Taba do Cacique ". Um local de diversão e excessos a beira do rio Negro, rente a BR 163, na divisa dos rincões do Mato Grosso e Guaporé. 

Joao grita e espragueja a perseguir o mal pagador mas não deixa a festa parar. É noite. Dentro, a palhoça é como uma estufa de ar turvo e quente, umido, temperado pelo odor de enxofre do pitilho, o incrementado baseado local recheado de fumo e pasta de cocaina. O chao, parte elameado , parte seco e poeirento, vibra da batida do som. O escuro é bombardeado por luzes vermelhas, amarelas, verdes, azuis que se chocam ao grande globo de espelhos pendurado no teto de pau e palha. Paredes de madeira fina, cascos de Tartaruga pedurados aqui e acolá , reverberam o choro agudo e estridente da guitarra que embala o brega e a lambada. Gente atolada de alcool, banhada pelo suor, se esfrega, rebola, rodopia, pula, grita em extase. A clientela é de madeireiros, garimpeiros, seringueiros, traficantes, pequenos comerciantes, solteiras a fim de festa, putas, rapazes de gestos afeminados, jagunços e pistoleiros.

 

Longe ao norte dali, o rio que testemunha a vida se chama Guajará. 

Começa cedo o dia para os dois filhos mais velhos da familia Tinto. Madrugada ainda escura, apressados, estao em marcha pelo estreito caminho de cascalho que leva ao Matauri, o matadouro da Vila de Coaraci, distante seis quilometros. A fome empurra o passo , eles tem pressa pra nao perder o café com pao e "quisuco" que quase todo dia é servido na barraca a beira do curral onde ficam os bichos ainda vivos.

Franzinos, aos 6 e oito anos, foram contratados pelo capataz, um velho amigo da familia, para fazer a limpeza dos restos da matança. Separar o que se aproveita dos ossos, limpar, lavar e estender o couro, raspar a carne que sobrou grudada a cartilagem, lavar do chao o sangue, a urina e as fezes. 

Na estrada conversam sobre as estorias de riqueza e mulher bonita que ha muito sao contadas na familia. Descendentes de varias geracoes de negociantes, exploradores, viajantes e aventureiros. Neles, entranhada, caminha junto a ansia de fugir da miseria e partir em busca de ouro, terras e fortuna.

 

Texto: Emanuel Pontes