Esperando por Ivan

Os dias estavam exigentes para o menino Antônio Ivan. Suas olheiras eram motivo de risos na escola e seus atrasos de cólera entre professores e supervisores estudantis e seus enigmáticos conselhos à riste. Para alguns, o garoto sofria de um “autismo juvenil” para outros uma “retardada delinquência estudantil”. Em casa, o pai moribundo que flertava, todas as noites, com a morte. Tosse canina e líquidos verdejantes que o pequeno acreditava serem ácidos. Aquele gigante que antes se movia pesadamente pelos corredores da casa, agora, era só um corpo grande sobre uma cama ensopada de suor, o homem sem palavras e de muitos gemidos. A mãe andava histérica e metódica, carregando a caixa de remédio que não fechava, dava palmadas no moleque que acordava resmugadamente chutando baratas e sapatos. O chá, as fronhas sendo estendidas, o travesseiro bem posicionado e encaixado no pai, enquanto o sonolento; com um pé, coçava a barriga rosada do gato o fazendo cair no sono novamente até num ponto onde tudo se misturava em imagens cheias de gatos brincalhões e pega-pega. A mãe atravessava as neblinas oníricas chutando e gritando, acordando cães e vizinhos, enquanto o menino esmagava a barriga do gato e ambos corriam em rumos diferentes: Ivan ao encontro do chá antes que torasse, o gato, algum esconderijo perto da porta do quarto onde o pai conversava sozinho. Mas não era exatamente; o chá, o problema. Sua missão na metade daquela madrugada era comprar um estranho remédio.

O nome era algo que Ivan jamais ouvira. Precisou escrever num bilhetinho, desfocar do gato que já roçava a fina canela, recobrar-se de um eventual sono e atravessar aqueles cinco quarteirões escuros cheios de criaturas desconhecidas e humanos perigosos. “Compre cloridrato de loperamida”. A pergunta se Ivan ouviu, entendeu, não esqueceu e ouviu novamente foi interminável, como naqueles interrogatórios cujo o réu já era profundamente culpado. Porém Ivan agora se via como um soldado pronto para resgatar um condecorado líder afugentado por inimigos ferozes em ilhas cobertas por nuvens escuras cerrando o pescoço montanhoso. Parecia que havia tempo para um pequeno gole de café, no entanto, a mãe se pôs a açoitar suas mãozinhas sujas de pão: “não há tempo para comilanças inúteis”. O menino calçou suas botinhas marrons esmirradas de couro com furos no fundo, beijou a mãe em atitude irracional e ouviu os clamores do pai pela chegada da morte. Era hora de enfrentar aquelas ruas horrendas.  

Por enquanto não aparecia o cachorro-lobo que vivia à correr atrás de motoqueiros fantasmagóricos mas talvez se depararia com o velho homem barbudo de calças rasgadas ou encontraria a moça do bar na esquina que sempre lhe chamava de “menino bonito”. Ao passo que avançava, Ivan lembrava daqueles filmes cheio de predadores e da coceira eterna no pé direito do tio Duarte, algo que deveria ser uma maldição certamente. Lembrou das histórias da dona Idevânia, que nem eram verdades, já que ninguém tirava uma foto. Por último foi observado pelo vigilante da rua e seu olhar fixamente desaprovador... “Não! Esqueci o bilhete encima da mesa, gato safado... Peraí, é cloro, colorido... clorifila... clotomina”. Não sabia. Voltaria, não voltaria. Refazer o mesmo percurso, naquela escuridão e enfrentar a mãe possessa de verdades que ele não queria ouvir: “Tu és um despreparado, moleque vagabundo, tolo da porra”. Iria lembrar, claro que iria. “Coli, clorocardiograma!!! Não...”. A farmácia já poderia ser avistada ao longe e Ivan de coração acelerado, desacelerava; os passos, a fim de lembrar: “Instrato, de... istrato de cloro. Instrato de cromossomu. Não sei!!!”.

Ao perguntar se havia “extrato de cromossomo”, o atendente se pôs a rir. Sua gargalhada poderia ser ouvida no Japão. Pensou Antônio Ivan. Não temos “istrato de cromossomo seja lá o que for”. Novas gargalhadas, dessa vez da atendente de crachá com foto assustada. Ivan mal alcançava o balcão de vidro e no reflexo viu que seu cabelo estava espetado, assustadoramente espetado e do fundo de uma porta enorme cor de ameixa um senhor muito alto, devia ter uns vinte metros, velho; talvez uns duzentos anos, “quem dirá que não”. Barba que brilhava como as nuvens com pontos amarelos perto da boca. “Será que bebeu mel com abelha? ”. “Boa noite garoto, sou Félix Cintra Pompeu, em que eu posso ajudar-lhe? ”. “É um remédio para o meu pai doente”. A pergunta mais temida por Ivan se concretizou. Mas agora lembraria do nome, não era possível. "é, cloro..., cloridin, clorofila de potássio...". O doutor se mostrava paciente. “Qual o diagnóstico dele? ”. Ivan foi visceralmente sincero: “Grita feito um porco com dor de cabeça. Fala como um zumbi e geme o resto do dia”. Novas gargalhadas. O doutor não respondeu. Perguntou onde morava, o que havia comido e tomado. “Moro lá embaixo, torta de uva e água”. Antônio respondia tudo menos a derradeira pergunta. Essa pendurava-se na sua língua e como um tobogã salivar; inclinava-se de volta ao estomago, esse já berrando pela falta do café doce e das bolachinhas. "ca, co, silia... filia... hidratante...". Felix apenas olhava receitas, anumerava coisas, assinava papeis, olhava o relógio, olhava receitas e entregou para Ivan um livro com dezenas de nomes de remédios: “Enciclopédia Farmacêutica Contemporânea da Amazônia Brasileira”. Era um novo mundo.

“Tantos nomes que poderia ser nomes fantasmas horrendos, seres com cabelos gigantes que enrolariam nos pés das meninas e elas gritariam de dor. Poderia ser nomes de cachorros também, gatos não, os gatos precisam de nomes fáceis para expulsarmos eles de sua recorrente teimosia, os cães poderiam ter esses nomes e assim causarem mais medos em ladrões”.

As horas avançavam sobre as pernas de Antônio Ivan que ardia de frio. Alguns trabalhadores avançavam ao início de suas jornadas, Ivan viu mulheres chorando pelos cantos da farmácia e outras grávidas que pegavam com carinho em suas barrigonas, pássaros brigando do lado de fora enquanto ele já folheava a página 278, letra Z. “Zoobelitrina... Zomelina... Quero ser zoorilath, o mago”. O senhor Pompeu havia esquecido de Ivan e quando atravessou o corredor: “Meu filho, vá pra casa e traga o nome desse produto, vá, vá e volte logo. Corra!!!”.

            Antônio Ivan agora tinha várias grandes missões. Enquanto corria, pensava: Na mãe, no gato, no atraso para a escola na aula de matemática, era dia de prova e de entregar o exercício que esquecera, em colher goiabas no intervalo, no futebol depois da aula, em comprar frutas geladas, naquela fonte de água que brotara no asfalto, não chamar atenção do cão-lobo-preto assustador, de ter que cantar no coral da igreja, algo maçante e obrigatório, daqueles nomes fantásticos de remédios que não lembrava mais de nenhuma, da prima Olga que tentou lhe beijar, do primo Rubens que fumava escondido e até no charuto que achou na gaveta de calcinhas da mãe. No médico Felix, nome legal para um gato, a mãe novamente, e no pai doente. Esse último ele lembrava e corria olimpicamente. Cada vez mais veloz chamando a atenção dos idosos maratonistas do bairro.

Dobrando a esquina, Ivan teve um estalo de memória: “Cloridrato! Lembrei, Cloridrato!!!!”.

Foram mais algumas horas de gargalhadas com as novas amizades da farmácia.