O Homem e a Trilha de Formigas

Ele estava sentado numa pedra do imenso jardim, olhando distraidamente para baixo, sentindo o peso dos anos nos ombros que já se curvavam para frente. Ainda era um homem robusto, com estrutura óssea grande. Tinha o passo pesado e firme e as rugas já eram fundas, fazendo um mapa de caminhos cruzados em seu rosto. Ele vagava em pensamentos furtivos, hora lembrava de eventos passados como se fora um filme onde ele era o protagonista,  e com a mesma intensidade se desapegada do roteiro da vida e seguia com o olhar uma trilha de formigas que desviava das suas botas surradas. Se flagrava imaginando a vida das formigas e sempre que fazia essas coisas, de se prender num pequeno evento aparentemente insignificante,  ele sentia que era uma práticaimportante,  quase uma estratégia, para viver outras coisas na sua mente. Ele gostava de pensar em coisas que nunca havia pensado antes, e gostava da idéia de acreditar que ele era a única pessoa que fazia isso. E por isso não compartilhava com ninguém, não por ser um segredo, mas por ser só seu, e sendo assim, só ele mesmo compreenderia.  O dia estava quente, mesmo no fim de tarde o suor lhe escorria pela face, fazendo um ziguezague zague entre as rugas até pingar pela ponta do nariz entre a trilha de formigas que escapavam apressadas e sem direção. 

(Autora: Diana Bonar)

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Sofia

Sofia:

    Não sei por quanto tempo ainda permanecerei aqui. Os documentos demoram a ficar prontos e meu passaporte tem validade para três meses. Agora já só faltam dois.

    A verdade é que já andei por todos os cantos e retorno a alguns que me agradaram mais. Lisboa, nesta época do ano, tem céu azul, e, apesar de ainda fazer frio, as pessoas agem como se fosse o início de um verão, bem diferente de quando aqui cheguei, há um mês.

    As janelas fechadas e o cheiro nauseante dos ambientes deram lugar ao sol que ainda tímido, ainda que festejado, entra pelas janelas agora abertas e traz um pouco de frio que renova o ar das casas. Há também flores, muitas, plantadas nos vasos das sacadas que suavizam o monocromático branco dos prédios.

    Então eu vagueio por aqui. Já fiz todo o trajeto do livro que você me deu quando parti e confesso que foi uma salvação para a semana passada. Fernando Pessoa realmente é o cara que entende esta cidade, porque ela é praticamente a mesma desde a época dele! Mas o relato do passeio fica para o próximo e-mail.

    Sei que você quer saber o que o primo Abel disse, e o que ficou acertado com tudo o mais que aconteceu, a fuga de Ana e o crime de Paquetá. Pois você acredita que depois de uma garrafa de vinho e alguns caracóis - não me pergunte agora o que são caracóis – eu tombei na mesa e ele teve que me levar à Pensão em que estou hospedada, sem que ele tivesse nem mesmo entrado no assunto? Sim, pois eles tergiversam e é um pois, está bem, , fora as palavras que eu não entendo.  Ele já me ligou para saber se estou bem e marcamos para quinta-feira, sem vinho, sem caracóis.

    Um beijo pra você

    Saudades do Quincas. Cuida dele, hein?

              Irene

PS: Acabei de ver que tem “pois “ demais. Tenho que tomar cuidado.

 

* Texto: CELIZA SOARES

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Naquela manhã

Ao passar por ela naquela manhã, notei que vestia lilás.

Nos últimos 24 anos nossos caminhos se cruzavam pontualmente às 6:15h da manhã. Ao atravessar a Avenida dos Passos era certo que passaria por aquela figura esguia, altiva, de semblante leve, envolta em seus pensamentos. Em todos estes anos, jamais trocamos uma palavra.

No início ensaiei um leve sorriso, um aceno de cabeça, mas depois compreendi que um breve olhar de reconhecimento seria confortável o suficiente. Compartilhávamos algo em nossa rotina. Toda a paisagem de nossa vizinhança cinza era por nós vista em ordem inversa naquele percurso matinal. Para mim, primeiro surgia o bar com sua calçada esburacada e vestígios da noite anterior, depois vinha a loja de ferragens com sua porta de ferro fechada à cadeado e graxa, em seguida o terreno aonde ficavam os latões de lixo e os gatos do senhor Albacete e, por último o muro grafitado da escola - único remedo de alegria por ali.

Ela parecia encolher ligeiramente a cada ano. Mas poderia ser apenas impressão minha. 

O passo era o mesmo, seu ritmo sempre constante. O que me chamava à atenção era o fato de sempre vestir rosa choque. Independente da época do ano. Mudavam as peças, porém nunca o tom. Mudava o corte à moda da época, mas o pink estava sempre presente, monolítico. Houve uma singela modificação no visual em todos estes anos, há alguns meses ela acrescentou ao conjunto um par de óculos de grau com armação rosa em estilo retrô.

Jamais soube para onde ela ia. Mas sabia onde vivia. Em outros momentos do dia a vi entrando no edifício número 16 da Rua ao Lado.

Por vezes me pegava imaginando como seria o interior de seu apartamento. Criava em minha mente um ambiente inteiro cor de rosa, e por longas horas me perdia no detalhes fictícios da decoração monocromática. Confesso que este pensamento ocupou minha mente inúmeras vezes, mesmo antes de avistá-la na rua pela manhã. Móveis, piano, cortinas, flores, copos, paredes, telefone, torradeira e geladeira no mesmo tom pink. Devia encomendar objetos especialmente para si, tingidos com seu tom favorito. Eu imaginava almofadas felpudas cor de rosa sobre o sofá do mesmo tom. As toalhas do banheiro, e provavelmente seus azulejos em composé. Quem sabe uma luminária com lâmpada rosa no cantinho da sala. Ah, a colcha de sua cama seria seguramente rosa. Sua banheira, seus sais de banho. Me imaginava explorando a intimidade de seu lar por pura curiosidade. Provavelmente viveria só. Talvez com um animal de estimação, uma calopsita (rosa). Ou um gatinho com um lacinho de fita pink no pescoço.

Há alguns dias percebi um ligeiro atraso. Quase meia quadra de diferença daquele ponto em que eu poderia mesmo marcar com giz no chão, a linha imaginária que me assegurava de estar no caminho certo e principalmente na hora certa desde que me mudei para o bairro no início dos anos 90. Este pequeno atraso, imperceptível aos olhos dos demais, representava em meus cálculos algo em torno de trinta segundos. Ela poderia ter diminuído a velocidade de seus passos, ou saído de casa mais tarde que o habitual. Porque eu, era certo, estava no horário.

* Texto: Patricia Borges

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