Sofia

Sofia:

    Não sei por quanto tempo ainda permanecerei aqui. Os documentos demoram a ficar prontos e meu passaporte tem validade para três meses. Agora já só faltam dois.

    A verdade é que já andei por todos os cantos e retorno a alguns que me agradaram mais. Lisboa, nesta época do ano, tem céu azul, e, apesar de ainda fazer frio, as pessoas agem como se fosse o início de um verão, bem diferente de quando aqui cheguei, há um mês.

    As janelas fechadas e o cheiro nauseante dos ambientes deram lugar ao sol que ainda tímido, ainda que festejado, entra pelas janelas agora abertas e traz um pouco de frio que renova o ar das casas. Há também flores, muitas, plantadas nos vasos das sacadas que suavizam o monocromático branco dos prédios.

    Então eu vagueio por aqui. Já fiz todo o trajeto do livro que você me deu quando parti e confesso que foi uma salvação para a semana passada. Fernando Pessoa realmente é o cara que entende esta cidade, porque ela é praticamente a mesma desde a época dele! Mas o relato do passeio fica para o próximo e-mail.

    Sei que você quer saber o que o primo Abel disse, e o que ficou acertado com tudo o mais que aconteceu, a fuga de Ana e o crime de Paquetá. Pois você acredita que depois de uma garrafa de vinho e alguns caracóis - não me pergunte agora o que são caracóis – eu tombei na mesa e ele teve que me levar à Pensão em que estou hospedada, sem que ele tivesse nem mesmo entrado no assunto? Sim, pois eles tergiversam e é um pois, está bem, , fora as palavras que eu não entendo.  Ele já me ligou para saber se estou bem e marcamos para quinta-feira, sem vinho, sem caracóis.

    Um beijo pra você

    Saudades do Quincas. Cuida dele, hein?

              Irene

PS: Acabei de ver que tem “pois “ demais. Tenho que tomar cuidado.

 

* Texto: CELIZA SOARES

... (continue aqui)

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