O Homem e a Trilha de Formigas

Ele estava sentado numa pedra do imenso jardim, olhando distraidamente para baixo, sentindo o peso dos anos nos ombros que já se curvavam para frente. Ainda era um homem robusto, com estrutura óssea grande. Tinha o passo pesado e firme e as rugas já eram fundas, fazendo um mapa de caminhos cruzados em seu rosto. Ele vagava em pensamentos furtivos, hora lembrava de eventos passados como se fora um filme onde ele era o protagonista,  e com a mesma intensidade se desapegada do roteiro da vida e seguia com o olhar uma trilha de formigas que desviava das suas botas surradas. Se flagrava imaginando a vida das formigas e sempre que fazia essas coisas, de se prender num pequeno evento aparentemente insignificante,  ele sentia que era uma práticaimportante,  quase uma estratégia, para viver outras coisas na sua mente. Ele gostava de pensar em coisas que nunca havia pensado antes, e gostava da idéia de acreditar que ele era a única pessoa que fazia isso. E por isso não compartilhava com ninguém, não por ser um segredo, mas por ser só seu, e sendo assim, só ele mesmo compreenderia.  O dia estava quente, mesmo no fim de tarde o suor lhe escorria pela face, fazendo um ziguezague zague entre as rugas até pingar pela ponta do nariz entre a trilha de formigas que escapavam apressadas e sem direção. 

(Autora: Diana Bonar)

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