O SábiØ - capítulo 2

O caso mais grave de desequilíbrio registrado naquele dia pelos paramédicos que atenderam o público no AlphateatR_185 foi rapidamente arquivado. Na ficha do paciente PPR_V2R foi assinalada a opção "superaquecimento do lobo temporal". No mesmo arquivo, a caixa verde representando " procedimento realizado com sucesso" também ficara acesa. 

No campo negro destinado às anotações complementares havia um asterisco com a palavra Insula. Uma bolinha entre parênteses. Detalhe que despertou a curiosidade do Dr. ArchisT ao analisar os arquivos do paciente exatos dois meses após a palestra traumática.

Embora os funcionários cinza tivessem contornado o imprevisto da apresentação com habilidade, chegando mesmo a convencer uma minoria que a fala do SábiØ fazia parte do espetáculo, os líderes instruíram seus subordinados com algumas determinações. A saber: até nova ordem o SábiØ número 107 deveria ficar isolado do contato público. Todas as palestras à partir daquela data deveriam ser pré-gravadas e seu conteúdo pré-aprovado por uma comissão recém formada para esta finalidade. No que diz respeito ao Dr. ArchisT, seria sua missão individual e sigilosa desenvolver um relatório de uma página com trinta linhas e 3500 caracteres em corpo doze, sobre o ocorrido com o paciente PPR_V2R.

Todos os presentes, incluindo o SábiØ e os organizadores, ao deixar o AlphateatR_185 após a palestra tiveram sua memória recente apagada. Um procedimento rotineiro, realizado em caso de necessidade pelos pórticos de acesso automatizados nos ambientes públicos. Sempre que necessário, o sistema que era programável por tempo, apagava sem qualquer desconforto as lembranças arquivadas no hipocampo cerebral. Podendo ou não substitui-las por música.

Não era raro ver pessoas que sequer se conheciam, movendo-se num mesmo ritmo enquanto andavam na rua. Neste caso específico, por questões de segurança se determinou que dez minutos seria tempo suficiente. O ideal seria não deixar margem para alguém se lembrar do ocorrido. Ao mesmo tempo, evitar riscos desnecessários ao apagar algo importante muito além daquela memória específica. 

Este tempo não havia sido determinado pelo Dr., e sim pelos líderes. E seguia uma norma do Departamento de Real Saúde Mental que levava em consideração a capacidade desenvolvida por alguns humanos de memorizar eventos antes mesmo que ocorressem. 

Casos controversos relacionados à perda de memória recente eram tratados no quadragésimo nono andar do PoliospitaL, lá ficavam os programadores de acesso. De maneira simplificada: o reclamante preenchia um protocolo online com a data do evento que apenas ele se lembrava e, ao passar por um pórtico qualquer na cidade tinha sua memória específica apagada. Não percebia quando isso ocorria, nem se recordava da solicitação naturalmente. Desta forma todos seguiam felizes e lembravam-se das mesmas coisas.

Enquanto caminhava pelo corredor iluminado com antiquadas luzes LED que puxavam para o tom magenta, o Dr. ArchisT percebia o efeito visual da lâmpada na pele das pessoas. Tinha certeza que elas ficavam esverdeadas. Fazia este percurso subterrâneo já há uns quinze minutos e observava todos que cruzavam o seu caminho. Se perguntava se este seria apenas um efeito ótico, e andava em direção ao seu cubo-escritório que ficava no oitavo subsolo. Quase na porta do último elevador, passou por uma mulher com a tez um pouco mais amarelada que o normal. Ali embaixo as regras sociais eram ligeiramente mais informais. Mesmo assim, não ele pode deixar de notar o desconforto nas pupilas da moça ao ser observada. 

Entrou sozinho no elevador. Agora mirava sua minitela com o arquivo-prontuário do paciente PPR_V2R e durante a descida, que era lentíssima em função da economia de energia solar, aproveitou para revisar as poucas informações ali contidas. Havia feito algumas anotações que considerava relevantes, sobre o procedimento que realizaria no enfermo em busca de anomalias cerebrais. Foi quando percebeu que em "procedimento realizado com sucesso" constava a data de amanhã.

 

texto: Patricia Borges